Meghan Markle, sotaques e o que a neurociência tem a ver com isso?

Já se perguntou o que aconteceu com seu sotaque de carioca após morar no nordeste por alguns anos? Ou com aquele amigo seu com um sotaque carregado do interior de São Paulo que acabou incluindo expressões do sul do Brasil após morar por lá? Isso também é possível ser visto em celebridades, a Meghan Markle é uma atriz americana que recentemente casou-se com o príncipe britânico, Harry, no ínicio desse ano. De lá pra cá, alguns fãs da atriz já repararam uma alteração em seu forte sotaque americano:

https://www.youtube.com/watch?v=Ksb8ZKQhMCI

Repararam o sotaque inglês? Não, não é um sotaque falso e nem uma coluna de fofoca, mas nosso cérebro é capaz de se adaptar sim a um novo país ou estado, de forma a mimetizar as palavras ditas de outras pessoas – fazendo-nos aparentar com um sotaque diferente.

Essa habilidade humana de mímica já foi estudada por cientistas e vou destacar dois estudos que surgiram com uma possível explicação. Nenhuma é excludente da outra.

Estudo 1 – Neurônios Espelhos

A primeira teoria que explica nossa imitação de sotaques é através dos chamados neurônios espelhos. Esses neurônios chamam-se assim porque eles estão por trás de nossa capacidade de imitar o comportamento. Eles localizam-se na região do córtex pré-motor e são ativados quando o indivíduo realiza um movimento, ou quando ele observa outro indivíduo realizando o mesmo movimento. Isso implica na imitação do comportamento através da observação e é de extrema importância no nosso aprendizado motor.

Além disso, a ciência acredita que os neurônios espelhos possuem uma função em nosso sentimento de empatia, o chamado “sentindo pelo outro”. Ou seja, experimentos mostram que determinadas regiões do cérebro humano, como o córtex frontal anterior, a ínsula anterior e o córtex cingular anterior, são ativadas tanto quando um indivíduo expressa determinada emoção, como quando esse indivíduo observa outra pessoa expressando essa emoção.

No caso da Meghan Markle, esses neurônios espelhos seriam ativados de forma a fazê-la aprender o sotaque britânico e, da mesma forma, inclui-se no ambiente, demonstrar empatia, etcs.

Estudo 2 – Mímica de sotaque

Um estudo publicado em 2004 estudou exatamente a capacidade das pessoas imitarem um sotaque humano. Para isso, eles pediram a uma série de voluntários que repetissem palavras de uma lista no computador, o experimentador gravou o que estava sendo dito. Em seguida, as pessoas deveriam repetir as mesmas palavras após um modelo lê-las uma a uma e, novamente, o que foi dito foi gravado. Em nenhum momento foi pedido às pessoas que imitassem o sotaque do modelo, apenas que repetissem as palavras. Os cientistas puderam, então, comparar o que havia sido dito pelas pessoas quando leram a lista sozinhas com a pronunciação delas repetindo de um modelo humano.

Surpreendentemente, as pessoas utilizavam uma pronúncia muito mais parecida com a do modelo, independente de sua forma de falar a mesma palavra anteriormente (lendo de um computador) – sugerindo imitação. E quanto mais vezes a pessoa repetia as palavras do modelo, mais a palavra dita se assemelhava em sotaque com a do próprio modelo.

De acordo com Goldinger, o primeiro autor desse estudo, pequenos traços de palavras que escutamos estão presentes e acessíveis em nossa memória, a chamada memória léxica. O fato de imitarmos o sotaque de maneira inconsciente sugere que somos sensíveis a forma como nosso interlecutor está falando e a incorporamos em nosso próprio sotaque. Goldinger acreditava que essa imitação fonética era uma forma de facilitar a comunicação humana.

E você, tem alguma teoria do por que imitamos sotaques? Já reparou em alguma outra celebridade que mudou seu sotaque ou alguma experiência pessoal que teve e sugere isso? Deixe seu comentário abaixo que queremos saber de vocês!

Referências:

Goldinger, S. D., & Azuma, T. (2004). Episodic memory reflected in printed word naming. Psychonomic Bulletin, 11, 716-722.

Rizzolatti, Giacomo; Craighero, Laila (2004). The mirror-neuron systemAnnual Review of Neuroscience27 (1): 169–192.

creditos da imagem:  POOL/SAMIR HUSSEIN

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